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domingo, 3 de janeiro de 2016

O discurso de Marilena Chauí e o filme “Que horas ela volta?”





A primeira indagação que fiz sobre o filme “Que horas ela volta?” foi sobre o significado do título do filme.
Depois, extrai o significado quando a personagem Jéssica revelou que esperou a mãe ou a avó toda a sua convivência e perguntava sempre que horas voltaria. Posteriormente, ao assistir o filme, percebi que o título não poderia ser mais bem escolhido. A empregada doméstica que mora no emprego não tem hora para voltar porque não tem hora para sair, ou melhor, não pode sair, porque tem que ficar a disposição dos seus empregadores.
E precisa aprender a ser tratada como uma cidadã de segunda classe a quem todos os deveres são impostos e nenhum direito é oferecido.
As cenas do filme ilustram bem essa sentença: até para pegar o copo de água recorrem à empregada e como afirma a personagem: ter noção da própria insignificância e recusar os quitutes dos patrões quando oferecem por polidez.
Ao buscar um fundamento científico que poderia se juntar aos eventos do filme, logo me recordei de Marilena Chauí e seu “ódio” pela classe média.
A filósofa sempre, de uma forma inflamada tem a seguinte fala sobre a Burguesia: “A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante.”
Minha crítica a essa posição é a de que o ponto de vista é sempre a vista de um ponto. Ao conviver com os burgueses, menina vinda da lavoura, aprendi uma porção de coisas sobre o que se deve ser e o que não se deve ser. Ensinamentos preciosos que não podem ser ignorados.
E logo, o inesquecível Lula me vem à cabeça: Um proletário, duramente rejeitado pela classe média por causa da sua origem humilde e seu pouco conhecimento acadêmico, quando se transformou em um burguês, esqueceu-se da origem e começou a usar indevidamente os recursos que poderiam ser destinados a alimentação, à saúde, a educação de crianças e famílias que vivem em situação de risco.
Dessa forma, representado ou administrando a sua equipe política que registrou na história do Brasil, um dos maiores índices de corrupção e desvio de dinheiro público.
Assim, mesmo no filme, observa-se a postura da vestibulanda de Arquitetura em relação a sua avó, não a ajudando, como se estivesse já ocupando um lugar melhor, pela tentativa de ascensão social a que se propunha.
Como se tem observado, o discurso de Marilena Chauí não salva os desafortunados do Brasil, nem a má gestão da presidente Dilma.
Os discursos da esquerda e suas atitudes  tem se mostrado vazios e nocivos pelo que tem trazido ao Brasil.
Ainda um questionamento principal sobre a eficácia do Prouni, as cotas das Universidades, bandeira do PT: negros e pobres sentados nos bancos das Universidades públicas e particulares,” como nunca se havia visto na história desse país”.
Mas se, hipoteticamente,  são pessoas que não apresentam condições biológicas ou cognitivas para acompanhar o ensino que é dado, forma-se outro nó na questão que se torna difícil desatar.
Aliás, essa premissa pode ser facilmente descontruída se a considerarmos como um dos argumentos da burguesia para interromper a luta pela ascenção social das classes populares.

E o final do filme, de forma imprecisa, coloca nas mãos da empregada um ato de rebeldia contra o sistema: furtar da patroa um jogo de xícaras que foi comprado para ocasiões especiais.
Esse ato compromete as boas intenções do filme, caso tivesse alguma: a mensagem que passa é que os pobres viram ladrões quando manifesta a rebeldia e a ruptura contra o sistema desigual que os sujeitam.
Concluindo o que se aprende é a luta pela sobrevivência, os discursos de ódio, o reconhecimento do que é aprender a viver, passa pelo mesmo viés: a luta pela sobrevivência e essa é a verdadeira vida.
A Vida como ela é.



https://youtu.be/H1nZeCncZps





segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A solidão necessária e o escriba


Homenagem a Walcir Carrasco, tecelão de histórias e pensador livre, que ama a solidão... 



Às vezes, pode-se estar em meio a muitas pessoas e, no entanto, sentir-se só. Essa solidão mostra falta de interação com as outras pessoas que pode vir de diversos motivos, dependendo da história de vida do sujeito e das experiências que teve.
Tais afirmações são simplistas, oriundas do senso comum.
Mas nesse momento, estou falando da solidão necessária de pessoas introvertidas que tem um mundo interior bem amplo e que gostam de meditar ou escrever, pensadores livres.
Essas pessoas são valiosas, porque escrevem a história do mundo, dos sentimentos  e das idéias, do conhecimento sócio histórico adquirido, da ciência e da tecnologia.
Sem essas pessoas nossa história comum, de seres humanos comuns ficaria perdida e jamais saberíamos os fragmentos da história cotidiana de cada um que influiu, com seus pensamentos  e ideais na construção do mundo das idéias, da energia psíquica que se transforma em matéria.
Não gosto de determinadas passagens do ano, pois sentimos obrigados a sair da solidão abençoada que instrui o processo criativo e sentirmos ou representarmos uma falsa alegria, confraternizando com pessoas que fazem parte de nossa família ou que não conseguimos estabelecer pontes de conhecimento e afinidades, ignorando os conflitos que aconteceram durante o ano inteiro.
A única coisa que permanece como memória vívida, segundo estudos psicológicos, é a história de sofrimento de cada um. Pode-se perdoar, mas nunca esquecer.
O princípio do perdão é indispensável, mas não significa que ao perdoarmos, podemos ignorar o mal que essa pessoa pode nos trazer, ao confundir nosso perdão como tolice de gente que não se dá ao valor.
O escritor de histórias  é um pensador livre que traz para o mundo real, personalidades que existem em sua imaginação ou na sua realidade ou que podem estar no mundo espiritual e precisa que sua história seja revivida como ensinamento.
Nem todas as histórias precisam ter final feliz. Pois sentimentos, como a felicidade é um estado imaginário que nos permitimos sentir de vez em quando, pois a vida é isso: tristezas, dissabores, decepções, alegrias, gratidão e reconhecimento.
Alguns pensadores livres são pessoas estranhas, que preferem a solidão.  muitas vezes, tristonhas, pois veem o mundo de forma diferente, lendo a alma das pessoas  e não querem ser como a massa: querem manter a sua integridade, respeitando seus limites. Aprendem a perdoar, mas identificam as pessoas tóxicas, vampiros de energia psíquica e procuram evita-las para que seu padrão de energia básica seja mantido.
Admiro essas pessoas, que para mim, são as mais valiosas. O ponto de equilíbrio do mundo, pois  conseguem registrar sentimentos e acontecimentos para o sentido e o significado de cada experiência ou sinalizar para que se abram novos caminhos, novas estruturas , pois sinto que se a nossa evolução biológica já chegou ao seu final, nosso processo de percepção do mundo e suas dimensões está no início.
O escriba é valioso, como também é valioso o leitor e o processo de leitura e escrita para fins didáticos se formam com esses elos: escrever e ler, ler  o que se escreve.

Mas para escrever, é necessária a solidão, necessária e bendita, para que as idéias possam fluir e tecer a colcha de retalhos da vida, também chamados de fragmentos.

(Não quero holofotes, quero a solidão e o silêncio de pensar e aprender )

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

50 TONS DE RETROCESSO



Como tenho estudado muito, não me sobra tempo para escrever e manter meu diário virtual nesse Blog que descreve a Vida como ela é, aos moldes de Nelson Rodrigues.
Deixaria passar , sem comentário algum, esse frenesi pela propaganda desse filme e desse livro chamado “50 tons de cinza”, se a minha verve feminista não tivesse sido atingida no âmago.
Localizo um retrocesso muito grande na luta séria pela igualdade de Gêneros promovida pelas Universidades e Centros de Defesa e Proteção a mulher.
Enojam-me os códigos de poder dessa obra, que reduzem a mulher num amontoado de sensualidade e submissão, trabalhada para ser explorada e violentada.
Há uma falta de dignidade muito grande nessa personagem ao se sujeitar aos abusos do homem infantilizado e debilóide com a sua personalidade imatura e doentia que quer exercer poder sobre a alma e o corpo de uma moça que se deixa submeter.
São mensagens subliminares que nos empurram, a nós, mulheres, para o fundo do poço, na qualidade de objeto de prazer e despudor, onde toda a  essência é subjugada a uma velha hierarquia que padece de cultura , sentido e significado;
Não vi o filme e nem li o livro, o que sei sobre essa obra são as sinopses e os comentários espalhados pela Internet.
Vem-me tristemente a lembrança as figuras trágicas de Elisa Samúdio e da simples mulher da periferia que aparece na DP com o rosto todo machucado pela surra que levou do marido e com sangramento porque a surra provocou um aborto de uma gestação mal planejada.
Ecoa na minha mente a frase recente de uma acadêmica: “Como vocês (mulheres contemporâneas, com todo o conhecimento )se submetem ao casamento se já sabem o que significa essa relação desigual?”
Fecho os meus olhos, esforço-me para não chorar de comoção, porque uma obra dessa ainda mais vinda das mãos de uma mulher não merece sequer uma lágrima minha...



domingo, 25 de janeiro de 2015

RETRATOS DA EDUCAÇÃO NO BRASIL: TORTURA E CONFISSÃO FALSA, REGISTRO DE OCORRÊNCIA E SÍNDROME DE BOURNOT





Um dos aspectos da Sociedade Democrática é dar a uma pessoa acusada de um ato ilícito o direito de ampla defesa.
Há dez anos convivo com professores, em situação trabalhista e em outros dezoito anos, convivo com professores na situação de aprendiz.
Percebi em todos, em maior ou menor grau, o sentimento utópico de modificar uma sociedade que discrimina e marginaliza, sendo o aparelho reprodutor da Hegemonia dominante, segundo Bordieu e Passeron (Stivall, p.12003, 2008).
Senti neles o desejo de ensinar, algum compromisso com a ação educativa, em contraponto a uma constante desvalorização.
Um efeito angustiante de um retrato da Educação no Brasil é o professor ser obrigado a produzir provas contra si mesmo. Situações adversas com os representantes da Hierarquia ou com a comunidade escolar, em muitas vezes, eles e elas  são tirados da sua sala de aula, interrompendo a mesma, deixando seus alunos com agentes escolares e totalmente desautorizados, em meios a risinhos de alunos, “vão pra Diretoria”.
Ou então, quando não tem agentes escolares, são chamados na hora do seu intervalo, aqueles preciosos vinte minutos que já nem são deles mais.
Ali chegando, na presença da Coordenadora, da Diretora e da Supervisora, ouve silencioso, um relato sobre alguma situação onde ele não foi profissional, ele não foi suficiente, meia verdades ou mentiras inteiras.
A angústia e o cansaço tomam conta. Não, não foi desse jeito, eu não fiz isso, eu gritei para me fazer ouvir, porque a classe estava muito barulhenta, e tenta justificar.
Então , a “superiora hierárquica” revestida do seu poder de julgar, brincando de ser Deus, escreve na ata os fatos relatados como se o professor ou a professora não tivesse seu direito a ampla defesa, tentado justificar ou impedir que mentiras ou meias verdades sejam  lavradas em seu nome.
Nesse momento em diante, fazendo força para não chorar (mulheres) ou perder a paciência de vez, e fazer um ato gravíssimo como uma agressão física, (homens) tomado por um cansaço infindável, assina qualquer coisa para se ver livre daquele ambiente de tortura, e é obrigado a assinar, sob ameaça de que outros profissionais da escola assinem como testemunhas.
Então a “ocorrência” é lavrada e o professor faminto, sem ir ao banheiro, mal interpretado volta para sua sala de aula, encarar a realidade , olhando para seus alunos que se sentem ou penalizados ou vitoriosos (depende quem está envolvido),  porque agora, nesse tempo de inversão de valores, é o professor que “vai para diretoria” assinar ocorrência, e tenta sem sucesso, continuar sua aula, em meio a um barulho infernal, porque no fundo, quem sabe, (ironicamente),  ele é um péssimo professor e nem tem controle de sala.
A Psicologia talvez dê conta de explicar tal drama:
Um sujeito , no seu ambiente de trabalho, desmoralizado, que é chamado na hora da sua aula ou na hora de seu intervalo, na frente de seus alunos, para ser pressionado e torturado psicologicamente para assumir todo o mal da escola, porque sempre é culpado de tudo, e assinar ocorrência como um bandido.
Desumano, totalmente desumano.
O que tenho percebido enquanto ator social ou observador de todos esses embates e dilemas morais, é que para a evolução da Educação como Ciência ou para preservar a saúde mental de cada docente é que se deve imaginar outra estratégia para resolver esses conflitos com o professor.
Observei ano passado, salvo em rara ocasião, uma metodologia diferente para tratar desses conflitos. O diálogo compartilhado com os envolvidos, observação e intervenção sem precisar o registro escrito e a distribuição correta das responsabilidades de cada setor.
Professores produziram melhor, trabalharam em regime de parceria e cooperação, como equipe, sem sobrecarga e na sala dos professores partilha de idéias, ainda que com pontos convergentes ou divergentes para chegar ao consenso.
Infelizmente, poucas gestoras tem essa maturidade e segurança. Confiar em seus professores, entregar a eles o domínio da sua sala, exigir que tenham responsabilidade e assumir o seu papel de parceira mais experiente.
O papel do gestor também é complicado. Essa hierarquia tirânica de controle aversivo total faz com que situações que não tenham registro escrito cheguem com outras nuances as suas superioras hierárquicas e são acusadas de não terem tomado providências, registrando o que ocorreu.
Mas para isso, gestoras devem ter controle sobre suas decisões e não devem ficar omissas , resolvendo por meio de diálogos e responsabilidades compartilhadas, ouvindo e respeitando o docente.
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Começando a mudar o nome dessas intervenções. Atualmente se chamam ocorrências. Ocorrência é algo que lembra ocorrência policial e é fundo de poço mesmo, o retrato do professor marginal, que precisa ser controlado, vigiado e punido. Sociedade de controle, vigiar e punir, Foucalt.
Não se deve obrigar um profissional de ensino a produzir provas contra si mesmo. As atas devem ter outra função social.
Avaliar professores é parte de um processo pedagógico, mas o mal estar docente é estar sempre debaixo dessa aura de desconfiança.
Ao invés de culpabilizar o professor, (bem mais fácil), aprendamos a dividir responsabilidades, a delegar tarefas a todos os funcionários da escola e acima de tudo, respeitar o horário de intervalo de cada professor.
Eu mesma e várias professoras que trabalharam comigo, ou até mesmo meus ex-professores foram  avisados para que na hora do intervalo, passarem  na Diretoria.
Ali, sem ter se alimentado, sem ter ido ao toalete, exaurido pela aula, consumido pela indisciplina de alunos, ouve somente, uma situação que as vezes, nem ele mesmo sabia que tinha acontecido ou chegado aquela proporção: uma mentira de aluno, uma fofoca de funcionário ou situações mal interpretadas.
Acredito que o Psicólogo escolar seria um excelente mediador para solucionar esses conflitos e balizar todas essas intervenções.
Essas situações afetam diretamente toda a equipe escolar , mas acaba estourando em cima do professor: manda quem pode, obedece quem tem juízo.
SÍNDROME DE BOURNOT
Bournot é uma palavra sem tradução literal que quer dizer burn: queima e out: exterior. O desgaste do profissional docente danifica seus  aspectos físicos e emocionais , e ele vai perdendo condições de reagir favoravelmente as pressões do ambiente de trabalho.
Qualquer estímulo de controle aversivo é recebido por ele como uma ameaça a sua estrutura fragilizada e suas reações são cada vez mais prejudiciais a ele mesmo e ao grupo.
Os principais sintomas são: fadiga, cansaço constante, distúrbios do sono, dores musculares e de cabeça, irritabilidade, alterações de humor e de memória, dificuldade de concentração, falta de apetite, depressão e perda de iniciativa.
Essa combinação explosiva pode levar ao alcoolismo, ao uso de drogas e ao suicídio.
Professores com síndrome de Burnout ficam arredios, isolados, irônicos, cínicos e tem baixa produtividade.
A doença não vai embora sozinha, requer tratamento que pode ser psicológico ou psiquiátrico, ou a utilização de uma metodologia adequada para que o professor se sinta valorizado  e respeitado.











quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

CAMINHOS DA INSERÇÃO: ESTIGMAS DA SOCIEDADE DE CLASSES, PONDERAÇÕES SOBRE LIBERDADE

Brasileira, baiana, proletária, mulata. Configuração estranha aos olhos dos aprendizes e dos mestres (preconceituosos).
Construtora, especialista,reflexiva,  Autônoma. Configuração dada no Curso de Formação.
Vivendo ente dois estímulos, um que me inferiorizava, pois não correspondia aos modelos vigentes e estereotipados e outro em que eu me apropriava da minha condição de sujeito, o da ação, do poder de compartilhar o conhecimento sócio historicamente acumulado e me construir, dentro da minha singularidade.
Como toda brasileira, observei a Hegemonia dominante regendo as normas e os olhares daquilo que é bom, certo, correto e necessário.O poder da classe média. O MUNDO DOS BRANCOS.
Todas as minhas professoras foram brancas e de uma só que eu me lembro, do tempo da Graduação, ligada a Filosofia que teve que partir para lugares onde a massificação da Identidade não estivesse (tanto) a serviço da Ideologia dominante.Onde a Cultura se sobressaísse empoderada em face de preconceitos de raça, cor e classe social. 
Foi trabalhar fora e permanecer na Formação continuada em Madri, Espanha ou Portugal, sabe-se Deus.

Outra, nem tão negra, que eu notei, não aderiu ao politicamente correto: o espichar, colorir  os cabelos e emagrecer, ditou com seu Discurso  o que era IDEOLOGIA.





Então eu entendi que não precisava disfarçar ou ignorar meu tom de pele, o encaracolado do meu cabelo, a largura do meu nariz.
E uma terceira, que coloriu uma Biblioteca, pós preconceitos e artimanhas de exclusão  e ganhou o coração das crianças de uma escola inteira.


E com a minha Identidade sócio historicamente construída, de família numerosa, dentro da minha teimosia em não permanecer a margem, poderia abrir caminho, desbravando a SELVA DE PEDRA. Tive , nos meus tempos magros, uma patroa que se chamava Lúcia, ela era professora, casada com um advogado ou dono de imobiliária, algo assim. Era o perfeito modelo burguês, neoliberal, classe média, com todos os seus preconceitos de família burguesa, brasileira, cujo sonho de consumo é viajar a Disney.
Foi na casa de pessoas assim que eu vi naturalizado o preconceito contra essa “gentinha, pobre e preta, que viceja vigorosamente à beira das calçadas da selva de pedra como flores do mal, abocanhando o dinheiro dos nossos impostos, apoderando-se da bolsa família” (preconceito atualizado).
E dentro da práxis é justamente essas florzinhas que alimentam a mesa farta, de peru e panetone dos professores menos pobrinhos, aburguesados, que arrotam caviar enquanto comem frango e alimenta um sonho nazista contra aqueles que os alimentam,no sentido próprio da palavra,  indo diariamente, com suas perninhas magras e seus corpinhos franzinos ocuparem os bancos escolares.
Foi um estágio precioso para que eu possa, agora, liberta daquele personagem da senzala, observar e construir parâmetros para lidar com pessoas assim: seu preconceito não morrerá nunca e o ódio e a luta de classes cada vez aumentará a medida em que a "ralé"  exigir direitos iguais.
E que estratégias diferenciadas não resolverão todo o problema. Será preciso inteligência.
A Sociedade de classes, em seu formato hierárquico, de pirâmide, abriga um preconceito latente e silencioso, onde tapetes são puxados em nome da legalidade político administrativa, e o Estado, representado por ícones como o falecido Secretário da Educação, destrói a vida de uma professorinha iniciante que é proletária, cujo único sonho de consumo é não depender do bolsa família, num exercício tímido de autonomia e coragem, RESILIÊNCIA.
Desejos do princípio de justiça. Em nome da Reencarnação, vejo nascendo uma baianinha paulista,  de nariz de batata,saia florida, sandália plataforma, cabelos anelados, com quatro  filhos para dar de comer, e resolve ser professora....IMPERTINENTE como toda flor que viceja a beira das calçadas, alimenta o sonho de três Faculdades, e o próximo capítulo será escrito na página da vida e do próximo post.
Exercícios da Alteridade, comandadas pela mão do TODO PODEROSO.
No palco da vida, onde os personagens são estrategicamente colocados, observar a fluidez das dinâmicas dos personagens sociais, posso tecer  minha colcha de retalhos, com meu linguajar estranho, falando de tudo um pouco.
Percebo, então, com certo pasmo, que sou construída de fora para dentro, e que tudo começou , a apropriação da palavras em um poema de João Cabral de Melo e Neto “Tecendo a manhã”.
Um tijolinho precioso foi a palavra de Clarice, “Pequena flor”.
E também, uma certa FOLHA, com seus articulistas burguesões , uns bem mais divertidos e outros mais violentos, foi lapidando o meu jeito de ser, ver, viver e estar.




E da minha construção de fora para dentro, admito o construir de dentro para fora, através da apropriação dos discursos da Sociedade. 
Só mais uma coisa. Mestre: a Edição da NOVA ESCOLA desse mês traz uma matéria de capa sobre o reconhecimento e o estudo da matriz africana no BRASIL. Isso é um bom começo. Vamos olhar no espelho e reconhecer um fiozinho de cabelo crespo.




Mas chega de prosa! O senso comum acabou de me avisar que quem gosta de conversa é PSICOLÓGO.
Psicologia? Xiiiiiii....
(Nem publicaram minha nota da NP2 , prova presencial, outro ponto de conflito....)









sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Um Conto de Natal para os Professores








Hoje eu queria ter a sabedoria da Clarice Lispector para escrever um Conto de Natal. De outra forma, sou escriba. Minha mente e minhas mãos me obrigam.
Final de ano, cansaço batendo, velhas esperanças pedindo para nascer. Mas quem vai nascer se partiu de dentro de si toda a esperança?
Um Conto de Natal que queria escrever seria o de dizer que a Educação é realmente inclusiva. Queria publicar a fotografia do meu reizinho, sorrindo, feliz.
Mas estranhamente, seu rostinho está triste. E eu não sei o que fazer com isso. Lembro-me de toda dor que foram esses anos, 2009, 2010,   que eu passei sem salário.
Luz cortada todo mês, água cortada, a tentativa de suicídio de uma filha. Meu esposo desesperado batendo de porta em porta, procurando um trabalho. O aluguel atrasando, o armário vazio, a Financeira atrás do veículo.
Meu marido em sub empregos a dez reais por dia. E eu, indo de vez em quando na APEOESP de Assis para ver se a advogada de Guarulhos tinha  conseguido falar com o Secretário da Educação.
Explicar para ele que eu não podia ir trabalhar em Guarulhos, que eu tinha filha adolescente e um bebê que estava sendo gerado. Que eu com  tanto título vazio de significado real, somente a pompa, estava em uma situação de pobreza extrema, pois o salário de professor é uma lástima.
Mas a advogada, distante, apenas me falou uma vez: “Se pelo menos uma diretora tivesse falado bem de você”...
Não, elas não falarão bem de mim, jamais. Pois meu olhar para Educação está revestido de uma força que nasce dos grilhões que cingiram os tornozelos dos meus antepassados.EU ACREDITO EM UMA EDUCAÇÃO LIBERTADORA.
Passar cinco anos dentro de uma Faculdade para ganhar a mesma coisa que um funcionário menos graduado  (motorista de ônibus, garçom, etc), e não poder tomar conta nem da própria sala?
São  impublicáveis todas as situações de controle aversivo a que somos submetidas em nome do poder.
Um poder burro, com ranço de escravismo, como se fossemos escravas do sistema, atreladas a programas de Educação que serviriam melhor para os filhos da elite.
A advogada nem sequer teve a decência de me avisar que o Secretário tinha me demitido.Eu, dentro do meu limite que liguei para saber.Não fiquei sabendo nem a data da minha exoneração.
APEOESP? Sindicato comprometido com a exclusão. Quero que Bebel venha aqui em casa e veja  como meu nome ficou sujo depois dessa situação.
Não quero diretora falando bem de mim, porque eu não sou puxa saco. Sou profissional do ensino e entrei na escola para trabalhar. Com licença, me respeite, sou professora.
Não quero afeto, quero respeito e quero meu salário.
Por falar em abandono, quem me abandonou mesmo foi o meu salário...
Foi a falta de solidariedade e o respeito a Constituição que abandonou a mão daquele secretário quando ele me condenou a mim e a meu filho a fome, a indignidade e a miséria.
E o silêncio dessa criança que me olha, com essa carinha triste, talvez, sentindo que mamãe está zangada e desiludida.
Mas, infelizmente, esse Conto não tem um final feliz.
Meu filho nasceu com um peso baixo, é muito magro para a idade dele e cresce lentamente. Consequências da desnutrição, dos poucos recursos durante a sua gestação.
Ele é esperto e inteligente. Mas ás vezes fica com um olharzinho triste e me pergunta:
__ Mamãe. Você vai ficar hoje comigo?
Não posso, tenho que dobrar jornada, porque um salário só e a gente passa fome.

E  procurar outra profissão, para não ficar com aposentadoria de professora.
Outro final triste para esse conto é que talvez possa ser prejudicada e não poder assumir meu cargo de outro Concurso que fiz e passei na Prefeitura de Assis.
Não foi um Conto de Natal que eu escrevi.
Apelando para o humor negro, eu contei um conto de vigário.
Artigo 22? Municipalização da Educação? APEOESP?Educação inclusiva?
Lembro que há cinco anos atrás, uma moça solteira, sem filhos e com posses que estava atrás de mim na classificação, conseguiu a remoção para a Escola de Frutal do Campo.
E eu, em face de todas essas situações difíceis fui exonerada por abandono de cargo.
A corja do PSDB.
Meu conto de vigário com final triste acabou.
Quem me dera não querer escrever, nem sentir, nem sofrer.
Mas não sou apenas uma professora que passa por essa desumanidade.
Sou apenas umas das que falam o que acontece com essa classe tão desunida.
Tenho vergonha da minha profissão. Tenho vergonha desse país que trata tão mal os professores.
Da Política nem vou falar...